Num contexto em que a sustentabilidade passou de palavra de ordem a critério de poder, mas raramente se traduz em arquitetura jurídica ou método operativo, João Maria Botelho afirmou-se como uma das vozes mais consistentes da nova geração europeia no debate ESG. Jurista de formação e Estratega por convicção, coordenou o primeiro manual académico de ESG publicado em Portugal e fundou a Generation Resonance, uma plataforma de jovens líderes que cruza política pública, juventude e diplomacia no espaço lusófono.

Aos 23 anos, foi distinguido pela Forbes 30 Under 30 na categoria de Sustentabilidade e Inovação Social, reconhecimento que consolidou um percurso marcado pela intervenção técnica, presença em fóruns internacionais de alto nível e contributo ativo para a discussão sobre transição climática, governação e futuro regulatório europeu.

O teu percurso na sustentabilidade começou quado o tema ainda era marginal em Portugal. Foste um dos primeiros a aproximá-la de uma lógica jurídica e estratégica. Esse movimento resultou de intuição, convicção ou cálculo?

Resultou de uma combinação dos três. Intuição para reconhecer um vazio conceptual num domínio ainda tratado de forma difusa, convicção para investir num tema pouco compreendido e cálculo para lhe dar estrutura e durabilidade. O ESG carecia de um enquadramento que o afastasse do mero discurso conjuntural e o tornasse resistente ao ciclo das modas. Desde o início, a minha opção foi clara: transformar o idealismo num sistema operativo. Um modelo funcional, juridicamente ancorado, que permita a um país ou a uma organização agir com propósito, mas com método, previsibilidade e responsabilidade.

Publicaste o primeiro livro académico sobre ESG em Portugal. Porque sentiste essa urgência?

Interpretar o ESG deixou rapidamente de ser suficiente. O problema já não era a ausência de discurso, mas o excesso de ambiguidade. A sustentabilidade circulava entre relatórios, conferências e estratégias empresariais sem ancoragem normativa clara, sem categorias jurídicas estáveis e sem distinção operacional entre o que constitui dever legal, opção estratégica ou mera narrativa reputacional.

Tornou-se evidente que faltava uma gramática comum. Faltavam conceitos operativos que permitissem aos decisores públicos, aos juristas e aos agentes económicos falar a mesma língua, com consequências jurídicas identificáveis e critérios de aplicação verificáveis. Traduzir o ESG para o direito positivo, para o funcionamento dos mercados e para a decisão pública passou a ser uma necessidade estrutural, não um exercício académico.

O livro nasce dessa lacuna objetiva, mas também de uma missão pessoal anterior a qualquer reconhecimento público. Sempre encarei a sustentabilidade como um domínio que só cumpre a sua função quando é compreendido sem ruído e aplicado com rigor. Descomplicar não significa simplificar em excesso, significa tornar inteligível o que é complexo, sem lhe retirar densidade técnica. Capacitar pessoas para compreenderem e aplicarem sustentabilidade com método é uma forma direta de responsabilidade cívica.

Estruturar intelectualmente um campo emergente não é um gesto neutro. Quem define os primeiros quadros de leitura influencia a forma como esse domínio será regulado, ensinado e praticado nos anos seguintes. Assumir essa tarefa implica consciência do impacto e sentido de dever. Não se trata de impor uma visão, mas de criar um sistema suficientemente robusto para resistir à moda, ao oportunismo e à diluição conceptual. É nesse espaço entre clareza jurídica e ambição pública que se situa o meu espírito de missão.

O lançamento no Mónaco e o convite para o Dubai marcaram um salto internacional. Que leitura fazes desses sinais?

Leio esses sinais com sobriedade. Não como um ponto de chegada, mas como validação de um método. Sempre acreditei que o impacto global não nasce de proclamações ambiciosas, mas de trabalho consistente levado a sério desde o primeiro contexto onde é testado. Começa-se onde se está. Se a estrutura for sólida, ela viaja.

Portugal é um bom laboratório. Tem escala suficiente para experimentar, errar e corrigir, mas também densidade institucional para dialogar com outros sistemas. Permite testar ideias em contexto real e afiná-las antes de as projetar para fora. Esse exercício prévio é o que evita que o discurso internacional seja vazio ou meramente simbólico. Trabalhar em rede surge como consequência natural dessa lógica. Nenhum projeto com ambição estrutural se constrói isoladamente. A Generation Resonance nasceu dessa convicção: ligar pessoas, disciplinas e geografias, criar circulação de conhecimento e evitar silos que empobrecem a decisão pública.

O meu percurso tem seguido essa matriz. Construir localmente com método, articular internacionalmente com critério e assegurar que o impacto não se dilui quando atravessa fronteiras. Internacionalizar, para mim, não é ampliar o discurso. É testar a robustez do que foi feito.

Foste nomeado Forbes 30 Under 30 e distinguiste-te em várias instituições. Que peso tem esse reconhecimento?

Tem utilidade, sobretudo numa fase inicial. Para um jovem líder, o reconhecimento externo funciona como um sinal de confiança num percurso ainda em construção. A Forbes trouxe visibilidade e legitimidade para entrar em espaços onde a idade, por si só, continua a ser um obstáculo. Mas nunca o vi como um ponto de chegada. Serve para abrir portas, não para definir o caminho. O que verdadeiramente importa é a capacidade de transformar essa atenção em trabalho sério, aprofundado e consistente ao longo do tempo. Quando o ruído passa, fica apenas o que foi construído. É aí que se mede a liderança e é também aí que a responsabilidade aumenta. A partir do momento em que existe visibilidade, deixa de ser apenas uma questão individual. Há uma expectativa, sobretudo sobre quem é jovem, de que o reconhecimento seja acompanhado por substância, coerência e entrega. Sempre encarei isso como um dever de exigência acrescida, não como um privilégio.

A liderança jovem, para mim, não se afirma pelo lugar que se ocupa nem pelos títulos que se acumulam, mas pela capacidade de sustentar trabalho no tempo, de criar estruturas que sobrevivam à pessoa e de abrir espaço a outros. Se o reconhecimento servir para isso, então cumpre o seu papel. Se não, é apenas um momento passageiro.

A Generation Resonance tornou-se um ponto de convergência entre juventude e política pública. O que a distinguee?

A Generation Resonance nasce de um vazio institucional muito concreto. Existia uma geração com preparação técnica, visão estratégica e vontade de intervir, mas sem acesso efetivo aos espaços onde se decide política pública. O problema não era falta de interesse. Era ausência de canais credíveis de participação qualificada. A plataforma surge para preencher esse intervalo desde o início ficou claro que não faria sentido criar mais um movimento militante. A opção foi construir uma rede estruturada, com método, linguagem institucional e ambição de impacto mensurável. O objetivo não passa por amplificar indignação, mas por transformar conhecimento em proposta e proposta em decisão informada.

O princípio orientador sempre foi juventude com critério. Isso traduz-se em projetos concretos como a Portuguese ClimateSummit, o Tomorrow Talks ou o trabalho continuado com associações juvenis e instituições públicas. Em todos estes contextos, o foco está na construção e não na contestação. Em vez de protestar contra políticas públicas, procuramos desenhá-las, testá-las e melhorá-las com base em dados, enquadramento jurídico e viabilidade institucional.

Essa opção estratégica explica a evolução da plataforma. A Generation Resonance passou a ser reconhecida como interlocutor credível, capaz de dialogar com decisores públicos, reguladores e organizações internacionais. Não como símbolo geracional, mas como espaço de trabalho sério. É essa distinção que lhe confere relevância e continuidade.

Insistes na CPLP como alavanca estratégica. O que te leva a apostar nesse eixo lusófono?

Porque é onde a distância entre potencial e execução é mais evidente. A CPLP reúne países com enorme capital natural, uma geração jovem altamente mobilizada e uma matriz comum que facilita diálogo e cooperação. Ainda assim, continua a faltar articulação estratégica, pensamento partilhado e uma linguagem comum para a ação pública. A ideia da CPLP+ nasce dessa constatação. Não como um projeto simbólico, mas como um espaço funcional de política, inovação ambiental e cooperação regulatória em língua portuguesa. Um lugar onde se produz pensamento aplicável, se ligam pessoas e se constroem soluções com ambição internacional. Mais do que um “clube”, trata-se de uma rede de influência que trabalha para transformar afinidades históricas em capacidade real de impacto global.


O discurso político sobre juventude ainda é paternalista. És crítico desse modelo?

Sou, porque parte de uma ideia errada. A juventude não é uma promessa futura, é competência disponível no presente. O problema não está na falta de talento, está na forma como as instituições distribuem responsabilidade. Em Portugal, tende-se a adiar a confiança. Em muitos contextos internacionais, jovens integram órgãos de decisão muito cedo. Aqui, espera-se que provem valor durante décadas antes de poderem decidir.

Liderar cedo implica errar mais cedo, é verdade. Mas também significa aprender mais rápido, corrigir melhor e construir com mais tempo. As gerações que transformam sistemas não são as que esperam autorização, são as que assumem responsabilidade quando ainda estão a aprender. É essa disponibilidade para decidir, errar e corrigir que distingue uma juventude preparada de uma juventude apenas celebrada no discurso.


O mar é uma constante no teu discurso. É metáfora ou estratégia?


É as duas coisas, mas sobretudo estratégia. O mar integra a identidade portuguesa, mas hoje isso é o menos relevante. O oceano é um ativo estrutural. Energia, segurança, cabos submarinos, dados, logística, biodiversidade, investigação científica. Está tudo ali concentrado. O paradoxo é evidente: Portugal continua a falar do mar como símbolo cultural ou paisagem emocional, quando deveria tratá-lo como infraestrutura crítica. Falta uma visão integrada. O oceano continua compartimentado entre políticas ambientais, narrativas identitárias e projetos avulsos de economia azul, sem uma articulação séria com soberania, investimento público, regulação e estratégia económica de longo prazo. Enquanto isso persistir, o potencial do mar permanece subaproveitado e politicamente neutralizado.

Uma nova geração tem de corrigir esse erro. Não por romantismo histórico, mas por necessidade estratégica. Num contexto de transição energética, fragmentação geopolítica e competição por recursos, o mar volta a ser central. Portugal já o compreendeu no passado. Volta a fazê-lo quando deixar de o tratar como estética e passar a tratá-lo como política pública estruturante, decisão económica e escolha soberana de longo prazo.


O que ambicionas alcançar até 2030?

Não encaro 2030 como um marco abstrato ou simbólico. Vejo-o como um horizonte de responsabilidade. Um ponto no tempo que obriga a avaliar se o trabalho realizado produziu efeitos estruturais ou apenas presença pública. Há três linhas de atuação que quero consolidar até lá.

A primeira passa por contribuir de forma séria para políticas públicas. Não através de opinião ou comentário externo, mas com propostas técnicas, pontes institucionais e trabalho preparatório consistente. Intervir antes da decisão, não depois dela.

A segunda é afirmar a Generation Resonance como uma plataforma lusófona estável e credível, capaz de ligar juventude tecnicamente preparada a processos reais de política pública. Uma estrutura que funcione para além de ciclos mediáticos, agendas pessoais ou conjunturas políticas, e que se mantenha relevante pela qualidade do que entrega.

A terceira é a mais exigente. Contribuir para a formação de uma geração que chegue aos lugares de decisão com autonomia técnica, ética e sentido institucional. Pessoas capazes de decidir sem depender de slogans, pressões conjunturais ou atalhos fáceis.

Quanto a mim, quero estar nesses espaços, sim, mas apenas se a presença significar capacidade real de decisão e assunção de responsabilidade. O futuro não se observa à distância. Constrói-se com trabalho continuado, método e escolhas difíceis.